sexta-feira, 10 de abril de 2020

A Lei da Ondulação e a Temporalidade


   


Durante a nossa caminhada cristã – principalmente logo após a nossa conversão – existe uma ideia perigosa que pode nos ocorrer como uma verdade óbvia em relação à comunhão com Cristo: a ideia de que uma vez aceito Jesus como nosso senhor e salvador, viveremos uma vida de constância absoluta, sem altos e baixos.

No livro “Cartas de um diabo á seu aprendiz”, de C.S Lewis, é comentado sobre uma teoria acerca desse assunto, chamada Lei da Ondulação. Nela, Lewis argumenta que o homem por ser em parte animal e em parte espírito, só experimentará a constância em meio a ondulação, ou seja, a variância de atos e desdobramentos temporais. Como espírito, ele pertence à eternidade, mas como animal estará sempre fadado a temporalidade. 

     Nosso espírito pode ser direcionado á algo eterno, mas as nossas paixões e tudo que diz respeito ao nosso corpo estará em constante mudança. Pois “mudar significa estar inserido na temporalidade”. É aqui que nos encontramos: presos na temporalidade. Apenas Deus não é afetado pelo tempo; apenas ele consegue ser cem por cento constante.
      
     É por isso que nosso espírito deve sempre estar mais forte do que a nossa carne. Se não podemos fugir das amarras do tempo então não podemos fugir das mudanças. É interessante o que disse certa vez Friedrich Holderlin “Vamos esquecer que existe um tempo e não vamos contar os dias da vida”. Nossa vida aqui na terra não nos permite isso. O tempo sempre irá nos lembrar que ele existe através de tudo aquilo que sofrer mudança.
     
     Em Hebreus 1:12 diz  “e como manto se enrolarás, e como roupas serão trocadas; mas, tu és imutável, e os teus dias não tem fim. Em 13:8 diz que “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e eternamente!” Já em Salmos 102;27,28 diz que “tu, porém, és o que és, e teus anos não tem fim.” Se queremos esquecer do tempo, devemos nos lembrar de Jesus. Se queremos deixar de contar os dias, basta tentar contar os dias de quem vive para sempre.
     
     A lição aqui, é que de fato é normal os altos e baixos e todas as inconstâncias com relação á nossa carne, mas não com nosso espírito. Podemos, com o passar do tempo, sofrer mudanças de gostos, estilos, manias e tudo que está inserido no tempo. Porém, se o nosso espírito estiver firmado no eterno, naquele que nunca muda, tais mudanças não comprometerão o nosso estado espiritual.

     Na página 54 e 55 do livro de Lewis há uma mensagem de alerta do diabo ao seu jovem aprendiz , ela diz o seguinte “Não se iluda Vermelindo. Não haverá um perigo maior para a nossa causa do que quando um ser humano, que não mais deseja, mas ainda assim pretende fazer a vontade de nosso inimigo (Deus), olhar ao redor, para um universo do qual todo traço dele parece ter desaparecido, e perguntar-se ´por que foi abandonado e ainda obedece.” 

     Se a nossa constância estiver em Cristo, podemos até termos dias desesperadores em que sofreremos estragos e provações homéricas, porém, quem olha para a eternidade não depende dos altos e baixos da carne para desfrutar da paz de Cristo e do seu amor. Acaba, então, por enxergar não mais a temporalidade; não mais o fim das coisas que se perpetua no tempo em que já aconteceram, mas a própria fonte da vida que não tem fim. Quem se põe de frente para a eternidade, acaba por ficar de costas para tudo aquilo que o assombra na escuridão do passado.